quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sub-Saharan Africa should return to pre-crisis growth rate in 2011, says IMF


MAPUTO, Mozambique – Economic growth rates in sub-Saharan Africa should return this year to the high levels seen in the mid-2000s, before the international credit crunch, driven by an increase in global trade and a rise in the prices of raw materials, says the International Monetary Fund (IMF).

The countries of sub-Saharan Africa should grow 5.5 percent on average in 2011, not far behind the average growth rate of 6.6 percent seen between 2004 and 2008, the year in which the global recession began. The region’s recovery is thanks in part to improved economic policies that many countries put in place before the crisis, according to Victor Lledo, the IMF’s resident representative in Mozambique.

Oil exporting countries are showing the strongest recovery while the outlook is less favourable for middle-income countries - a group dominated by South Africa - where the recovery will be more gradual. However, high food and fuel prices could still have a negative affect on the region’s recovery, leading to higher inflation in many countries.

“Africa, unlike during other crises, has shown more resilience,” Lledo said, speaking to journalists from Portuguese-speaking African countries on a financial and economic reporting course in late June in Maputo.

“This resilience has been evident across sub-Saharan Africa, primarily thanks to better economic policies adopted before the global recession,” he told the course, organised by the Thomson Reuters Foundation and the Norwegian Agency for Development Cooperation (NORAD) at the Mozambican parliament.

POVERTY REDUCTION STAGNATES IN MOZAMBIQUE

Following strong average growth rates in the mid-2000s, growth in sub-Saharan Africa slumped in 2009 to 2.8 percent. Last year, the region showed its first signs of recovery, growing at 5 percent.

Growth for 2012 is forecast at 6 percent, according to the IMF’s regional outlook for the region, published in April.

Mozambique is one of the African nations that will continue to show strong growth, Lledo said. This year, the country’s Gross Domestic Product (GDP) will grow at an inflation-adjusted rate of 7.25 percent and 8 percent over the medium-term, according to IMF forecasts.

However, this strong growth is not benefiting the population as hoped.

“Mozambique is showing sustained growth but poverty reduction has stagnated,” Lledo added.

Mozambique grew at an average of 7.8 percent in the four years before the economic crisis and is among the ten countries in the world that have shown the strongest growth rates since 2000.

However, it continues to be one of the poorest countries in the world and was ranked 165 out of 169 on the United Nations’ Human Development Index in 2010, followed only by Burundi, Niger, the Democratic Republic of Congo and Zimbabwe.

Inflation, meanwhile, is slowing and the IMF forecasts inflation of 9.5 percent this year, compared with 12.7 percent in 2010. This trend should continue in 2012.

“Inflation seems to be evolving in a satisfactory way,” added Lledo.


Publicado em Trust Media (Thomson Reuters Foundation), a 8 de Julho de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Santo Antão: Nós, a montanha e o mar

A mais montanhosa das ilhas de Cabo Verde é um destino cobiçado por turistas que procuram o contacto directo com a natureza. Longe dos grandes hotéis e resorts, chegam de França, da Alemanha e de outros países do norte da Europa. O turismo de natureza em Santo Antão, numa reportagem feita com muitos quilómetros nas pernas.

O sol das 11 horas é quente. O Hiace não vai cheio e no seu interior são quase todos turistas. A viagem desde o Porto Novo é rápida e inclui uma paragem, pouco antes da localidade de Janela, para uma curta sessão fotográfica. O cenário é perene e ergue-se imponente à vista de todos. A montanha e o mar. Ouve-se um "ah", seguido de um "uau", rematado com o definitivo "incroyable [incrível]", indício da eventual nacionalidade dos companheiros de viagem.

"Français? [francês]". "Oui [sim]". Raphael veste caqui. A aparência não ilude. Está ali para caminhar e se dúvidas restassem, o próprio cuida de as esclarecer rapidamente. "É a minha primeira vez em Santo Antão. Estive no Sal há uns 10 anos, mas agora quis vir conhecer esta ilha que faz mais o meu género. Não gosto de hotéis cheios de gente. Prefiro estar rodeado de natureza". Habituado a percorrer muitos quilómetros a pé, obriga-se a transportar apenas o essencial. Os poucos pertences de que precisará nos quinze dias seguintes, a passar entre subidas e descidas, cabem na mochila que arrumou no tejadilho da carrinha. "Muito peso só atrapalha".

Junta-se à conversa Louís. "Marcel, Louis Marcel", esclarece. "Pode tratar-me por um nome ou pelo outro". Escolhemos o primeiro e prosseguimos. "Já venho para Santo Antão há muito tempo. Nunca me canso. Conheço todas as ilhas de Cabo Verde, mas esta é a minha preferida".

O veterano também é francês (são-no grande parte dos caminhantes que chegam de fora). "Isto é quase uma peregrinação. Quando me reformar mudo-me para cá definitivamente".

Quem não esperou pela reforma para mudar de vida foram Dominique e Katelijne. Francesa e belga. Foi do Sal que vieram e a sua história conta-se assim: durante dez anos trabalharam juntas num dos ‘resorts' da principal ilha turística do país. Um dia, Dominique percebeu que lhe faltava um refúgio. Do aeroporto Amílcar Cabral apanhou o avião para São Vicente e daí o barco para Porto Novo. Perdidas no Vale do Paul estavam as quatro paredes que serviram de inspiração para o que é hoje a ‘Casa das Ilhas'.

Ei-la lá em cima. Pintada de amarelo, no topo da montanha. "Casa das Ilhas, quartos, 15 minutos", lê-se na placa que convida à subida. O quarto de hora é a pé, entenda-se. Calor, sede e suor em bica. A tudo isso parecem ficar indiferentes os dois homens com a [aparentemente] fácil missão de carregar as malas dos hóspedes encosta acima. Com mestria e treino, rapidamente ganham distância.

Katelijne recebe os forasteiros. "Venha comigo para beber água e lavar a cara".

A vista é arrebatadora. O vale estende-se até ao oceano, rasgando as montanhas rochosas que ainda conservam o verde, apesar dos muitos meses que passaram desde as últimas chuvas.

"Começámos por fazer uma coisa pequena e mesmo antes de abrirmos já tínhamos clientes. Tivemos de dar a nossa cama, porque eles subiram e já não quiseram descer", recorda Dominique.

O cenário mudou ligeiramente. Na sombra do alpendre corre uma aragem. Há um cão. Afinal são dois. Chega uma criança. "O que é que se diz?", pergunta a francesa que desistiu de ter carro "porque aqui não vale a pena". "Bom dia", responde. "É o meu filho".

A casa ficou pronta em Setembro de 2006. "Percebemos que havia potencial". O lugar tornou-se conhecido. "Primeiro, tivemos o voto de confiança de alguns operadores turísticos com os quais já trabalhávamos. Depois, começou a ser o boca a boca, que é sempre a melhor publicidade".

Hoje, são nove os quartos, de decoração simples mas cuidada. Não raras vezes a lotação está esgotada.

Dominique e Katelijne mudaram radicalmente o seu dia-a-dia. Chegadas a Santo Antão, a sua principal preocupação foi integrarem-se na comunidade para a qual contribuem e da qual dependem. Instalaram um jardim infantil e recebem diariamente dezasseis crianças da vizinhança.
O seu projecto turístico criou uma dinâmica local que fazem questão de realçar. Além dos empregos directos, dosfuncionários da Casa das Ilhas, oferecem uma oportunidade de obtenção de rendimentos a um conjunto mais alargado de pessoas, dos carregadores de malas - os irmãos de há pouco e a mãe destes, a mais ágil dos três - ao carpinteiro, passando pelas vendedoras de frutas e legumes.

Na equação entra, contudo, alguma perplexidade. "Eu não suporto essa nova mania do país em abrir estradas que não levam a nenhum lado. Eu prefiro andar a pé, mas chegar ao fim do caminho e encontrar alguma coisa, do que andar de carro e chegar ao fim da estrada e não ver lá nada", desabafa Dominique.

"Em Santo Antão ainda está tudo por fazer. É preciso criar as condições para que as pessoas se fixem cá". Para superar esse desafio, o turismo pode desempenhar um papel importante, acreditam as duas sócias e amigas.

"Mas o turismo em Santo Antão tem de ser uma coisa muito calma e bem-feita", alertam em conjunto, apontando para a Ponta do Sol como o exemplo do que "não deve ser feito".

"Ponta do Sol o que é agora? É um cogumelo gigante de prédios".

"Queremos que os turistas deixem cá o dinheiro. Queremos que as pessoas que estão à beira dos caminhos possam trabalhar. Então vamos integrar toda a gente e fazer com que elas tenham alguma coisa a ganhar e por isso não sintam necessidade de sair daqui para outras ilhas ou outros países", sugere Katelijne enquanto acena a um casal de hóspedes que, já refeito dos "15 minutos", se prepara para uma primeira incursão pedestre.

Um escritor

O mais provável é que as crianças italianas não o saibam, ou sequer façam caso disso, mas o autor de muitos dos livros de literatura infanto-juvenil que têm em casa são escritos no Paul. Das mãos de Orazio Minneci saíram obras muito conhecidas no seu país de origem como "Le ventisette valige di Ennesimo Quaranta" ou "Tutti gli spasimanti di Mery Diana del Sol". Poupamo-nos as traduções.

Orazio chegou a Santo Antão em 1995. No seu país natal era bibliotecário e dirigia um centro cultural. A falta de tempo para se dedicar àquilo de mais gosta - a escrita, como se percebe - obrigou-o a mudar de país.

Porquê Cabo Verde? "Foi dedo no mapa", confessa. Sabia pouco do arquipélago, até porque, "naquela altura, este país era praticamente desconhecido".

"Eu não sou um comerciante, não sou restaurador e não tenho nada a ver com a actividade turística", admite. Ainda assim, foi da sua vontade que nasceu a Aldeia Jerome.

Na Vila das Pombas - agora cidade - escondida atrás de outras casas e acessível por uma passagem que passa despercebida a quem não a procurar bem, o refúgio do escritor italiano é, por si, um estímulo à imaginação. Primeiro, o verde denso de muitas árvores e arbustos, apenas rasgado por um caminho de pedra. Trinta metros depois, as casas por onde se distribuem os oito quartos, sem número, mas com o nome de heróis de narrativas imortais.

"Os turistas que recebemos são pessoas que querem conhecer. Gente de um nível cultural e económico ligeiramente mais alto do que aqueles que procuram o turismo de massas. Quem chega, quer integrar-se e saber".

Quererá também consumir os produtos locais. Pode fazê-lo ao pequeno-almoço, com doce, queijo, iogurte e fruta, mas terá dificuldade em encontrar postos de venda, nomeadamente ao longo dos caminhos referenciados nos guias turísticos internacionais e procurados pelos montanhistas.

"Além da cana-de-açúcar, não existe uma produção contínua. O transporte é difícil", refere Orazio. "É mais fácil encontrar produtos de Santo Antão à venda em São Vicente que propriamente aqui na ilha".

Faltará, acredita, alguma estratégia aos agricultores. "Se tivessem outra visão, poderiam montar, ao longo dos trilhos, vendas dos produtos que produzem".

"O sector turístico garantia o mercado para os produtores. E os produtores garantiam o abastecimento do sector turístico".

Algo que já acontece, no entender do presidente da Associação de Municípios de Santo Antão.

"Acho que já há um interface entre agricultura e o turismo. Quando alguém visita a ilha pode encontrar produtos da terra. Há legumes, frutas e pecuária, além da própria pesca", entende Amadeu Cruz.

"Creio que, nesta altura, no Tarrafal de Monte Trigo, Vale do Paul e Vale da Garça, o consumo maioritário é da produção local", acrescenta o também autarca de Porto Novo que não deixa de reconhecer algumas dificuldades e falhas que precisam de ser ultrapassadas.

"Há um défice de informação turística". Nesse sentido, existe um projecto para aproveitar as antigas sentinas e fontanários municipais, entretanto desactivados, reconvertendo os espaços em postos de informação e prestação de serviços.

"Nesses locais será possível, por exemplo, a venda de um café, de uma garrafa de água ou de informação especializada sobre os circuitos. São coisas que podemos fazer com criatividade e imaginação", revela.

O rumo está definido, garante Amadeu Cruz. É o do "turismo de natureza e turismo ecológico ligado às montanhas". Agora, o presidente da Associação de Municípios local quer que as autoridades públicas - do Governo às câmaras municipais - se engajem na divulgação das singularidades da região.

"É necessário que a promoção turística de Cabo Verde, além do turismo de massas da Boa Vista, do Sal e do Maio, aposte no turismo étnico de Santo Antão, mas também de Santiago ou do Fogo. Se o fizermos, estaremos a agregar valor ao país".

País insular ao qual as irmãs Hanne e Angelika prometem voltar. Em Porto Novo, sentadas numa esplanada com vista para o ‘canal', despedem-se do esplendor natural da ilha mais a norte do arquipélago.

Ensaiam algumas palavras em crioulo com a empregada de mesa. A tentativa sai gorada e no mais universal inglês acabam por pedir uma cerveja nacional. "Gostámos muito. Só temos pena que algumas coisas não estejam bem assinaladas. Tivemos algumas dificuldades em descobrir certos caminhos",

Em breve iniciarão a viagem de regresso à casa, jornada que terminará no reencontro com Estugarda, cidade alemã da qual são naturais.


Publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 490 de 20 de Abril de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crónica: Diversidade

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Publicado no 'barlavento' (Portugal) n.º 1746, de 24 de Fevereiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dois anos que [realmente] mudaram o mundo

A abertura democrática em Cabo Verde e realização das primeiras eleições livres no arquipélago aconteceram depois de um período de grandes alterações na sociedade das nações. A queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e o desmoronamento da União Soviética foram o prelúdio de uma nova era global, em que o mundo ainda assistiu à invasão do Kuwait e à eleição de Slobodan Milosevic e parou para, emocionado, acompanhar a libertação de Nelson Mandela.


1980: E o muro finalmente caiu

Janeiro, 20. Nos Estados Unidos, uma mudança de protagonistas: George Bush, pai, toma posse como presidente. Sucede no cargo a Ronald Reagan, o mesmo que, em 1983, ao dirigir-se à Associação Nacional de Evangélicos, em Orlando, Flórida, afirmara acreditar que “o comunismo é um capítulo triste e bizarro da história humana”.

Ainda Bush não aqueceu o lugar e no Afeganistão, a União Soviética põe fim a nove anos de ocupação. A última coluna militar abandona simbolicamente Cabul a 2 de Fevereiro.

Do outro lado do globo, a queda de um ditador: Alfredo Stroessner, à frente dos destinos do Paraguai desde 1954, é derrubado depois de um golpe militar.

Da URSS, um sinal: as eleições de Março para o Parlamento ditam um enfraquecimento da posição comunista. Poucas semanas mais tarde, a 7 de Abril, um dos submarinos da potência bélica afunda-se no mar de Barents e leva consigo a vida de 41 homens.

Na Europa de Leste, Lech Walesa assiste finalmente à legalização do seu Solidariedade que é autorizado, ao mesmo tempo, a participar, nas eleições agendadas para 4 de Junho.

Por esta altura já o velho continente respira ventos de transformação. A diplomacia intensifica a sua actividade. Torna-se cada vez mais evidente que a cortina de ferro está prestes a abrir-se. Antevendo o que Novembro significaria, a Hungria entreabre a sua parte: 240 quilómetros na fronteira com a Áustria. Foi a 2 de Maio.

Nesse mesmo mês, 12 dias mais tarde, Gorbachev, o mesmo que viria a ganhar o Nobel da Paz pelo seu contributo para o fim da Guerra Fria, aterra na China. Foi a primeira visita a Pequim de um líder soviético em quase 40 anos.

Mikhail pisa o solo da República Popular num período conturbado para os propósitos do partido único chinês. Em Tiananmen desenha-se aquele que viria a ser um dos mais sangrentos massacres da história. A 4 de Junho, os militares disparam indiscriminadamente sobre os manifestantes, na sua maioria estudantes e intelectuais. Terão morrido alguns milhares de pessoas. Os números oficiais indicam apenas 241 baixas, mas um documento secreto do KGB, recentemente tornado público, avança com 3 mil vítimas mortais.

No dia 19, o activista Tadeusz Mazowiecki, do partido polaco Solidariedade, é escolhido, no seu pais, como primeiro chefe de governo não comunista em 42 anos.

Enquanto a Polónia reage à escolha de um novo rumo, Austríacos e Húngaros sentam-se no chão e partilham uma refeição lendária. As fronteiras entre os dois países são abertas – ainda que timidamente – para um piquenique que funciona como antecâmara do tratado rubricado a 23 de Agosto e que elimina, definitivamente, as restrições que, durante anos, mantiveram os dois países vizinhos de costas voltadas. Dois meses mais tarde viria a ser proclamada a nova República da Hungria, sem o Popular que até então prevalecera.

Estava ferida de morte a divisão a que a Europa e o mundo estavam condenados desde o final da II Guerra Mundial, como doente estava Erich Honecker. A 18 de Outubro, o líder comunista da Deutsche Demokratische Republik, República Democrática da Alemanha, não tem outra solução: abandona o poder. Dias mais tarde, o governo segue-lhe o exemplo e deixa o Presidente Egon Krenz sozinho e sem base de apoio.

A 9 de Novembro, um lapso acaba por precipitar o que já se percebia ser inevitável. Em conferencia de imprensa, Günter Schabowski antecipa-se e informa, em directo para quem o quis ouvir, que a partir daquele momento é possível viajar entre os dois lados do ‘muro da vergonha’. A euforia toma conta dos populares e as imagens que se seguem perpetuam-se através das objectivas dos fotógrafos e lentes dos repórteres de imagem.

Ainda muitos alemães não chegaram à cama e, na Bulgária, o dia 10 amanhece com uma mudança de nomes: Petar Mladenoy substitui Todor Zhivkov e muda o nome do partido Comunista, que daí por diante passa a ser Socialista.

A queda do Muro de Berlim acaba por ser a inspiração que faltava para uma série de alterações profundas que se seguiram. Na América latina, o Brasil realiza, no dia 12, as primeiras eleições presidências livres desde 1960. Em pouco tempo, pela primeira vez na história, todos os países daquela região do globo, com excepção de Cuba, serão dirigidos por governos constitucionais.

Dia 17, a então Checoslováquia salta para as primeiras páginas dos jornais. Em Praga, milhares de estudantes iniciam um protesto pacífico contra o regime comunista. O número de manifestantes cresce ao longo dos dias seguintes e, a 20 de Novembro, atinge os 500 mil. Perante a pressão popular, o Partido checo anuncia a abertura do regime a outras forças politicas. Semanas depois, as eleições ditam a escolha de um governo com uma nova cor.

A 3 de Dezembro, um encontro histórico junta George Bush e Mikhail Gorbachev, em Malta. No final da reunião, os dois líderes mundiais anunciam aquilo que todos esperavam ouvir: a guerra fria está prestes a tornar-se apenas uma recordação.

Antes do Natal, na Roménia, e depois de uma semana violenta, marcada pela morte de muitos opositores, as operações militares contra os revolucionários chegam ao fim com sucesso para aqueles que exigem a queda do ditador Nicolae Ceausescu, que é executado, com a sua mulher, no dia 25, acusado de crimes contra a humanidade.

Ceausescu morre quatro dias antes de Václav Havel ser eleito presidente da agora República Checa.




1990: Mandela livre e Kuwait ocupado

Por instantes, a queda do Muro de Berlim criou a ilusão de que a paz se tornou um paradigma mundial. Cedo se percebeu, contudo, que a expectativa daria lugar à frustração.

Janeiro começa com uma grande manifestação na Lituânia. Os protestos centram-se num único propósito: a independência.

Ímpetos independentistas que se alastram, ainda em Janeiro, ao Azerbeijão. Sob as ordens de Gorbachev, o exército soviético ocupa a cidade de Baku. Resultado: 130 mortos e 700 feridos.

Mas a história faz-se de detalhes. No último dia do primeiro mês de 1990 abre em Moscovo o primeiro McDonald’s. Milhares de pessoas correm para experimentar o sabor do Big Mac.

No extremo sul do continente africano as atenções centram-se num único homem: Nelson Mandela. Depois de 27 anos atrás das grades, Mandela é libertado a 11 de Fevereiro, no cumprimento de uma promessa feita pelo presidente sul-africano, F.W. de Klerk. 48 horas mais tarde, as duas Alemanhas assinam um plano para a reunificação.

Depois das manifestação de Janeiro, em Março, a Lituânia volta às primeiras páginas dos jornais, ao proclamar a sua independência. A declaração formal é feita no dia 11 e recusada pela União Soviética menos de uma semana depois.

A 21 de Março, a Namíbia retoma a soberania, depois de 75 anos de domínio da África do Sul.

É preciso esperar pelo primeira dia de Junho para que se assista a um dos momentos mais importantes no caminho para o fim da guerra fria. Os presidentes norte-americano e soviético rubricam o tratado que determina o fim da produção de armas químicas e a destruição dos respectivos stocks.

No mês seguinte, a Bielorrússia diz para quem a quiser ouvir que, a partir daquele momento, é um estado soberano.

Acreditava-se num futuro de paz e foi Saddam quem mostrou que a ideia era apenas uma utopia. A 2 de Agosto o Iraque invade o Kuwait e dá início a uma escalada de tensão no médio oriente, que tem o seu apogeu em 91, com a eclosão da Guerra do Golfo.

Com as atenções centradas nos propósitos do ditador iraquiano, o verão de 1990 produz ainda uma notícia esperada: República Federal da Alemanha e República Democrática da Alemanha voltarão a ser uma só nação a partir de 3 de Outubro. O processo de reintegração ficaria completo menos de um ano depois da queda do muro.

Chegados a Outubro, e já depois da declaração unilateral da independência do Azerbeijão, um anúncio: o comité Nobel decide galardoar o presidente Mikhail Gorbachev com o prémio Nobel da paz.

Em Novembro, o Conselho de Segurança das Nações unidas aprova a Resolução 678, que autoriza a guerra no Iraque. É dado um prazo ao governo de Saddam Hussein para que ordene a retirada das suas tropas dos territórios ocupados do Kuwait até 15 de Janeiro de 1991. Data limite que, como se sabe, não chega a ser cumprida.

Apesar da guerra eminente, não passam despercebidas dois outros destaques de primeira página. A 9 de Dezembro, na Polónia, Lech Walesa é eleito, à segunda volta, e confirmado como Presidente da República. O mesmo cargo que, na Sérvia, é assumido por um homem que o mundo passa a conhecer pelas piores razões: Slobodan Milosevic.

Publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde), n.º 476, de 12 de Janeiro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Adeus Afeganistão. Olá escudo anti-missil


Cimeira de Lisboa deverá ser decisiva para a definição do plano de retirada do Afeganistão e implementação do escudo anti-missil na Europa.

A partir de sexta-feira, Lisboa recebe uma cimeira de dois dias da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN ou NATO, na versão inglesa). Os 28 Estados-membros estarão maioritariamente representados pelos seus principais dirigentes políticos. Entre eles, Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, pela primeira vez em Portugal.

A NATO é hoje o único bloco do mundo de cariz unicamente militar e o seu papel no actual contexto global é um dos eternos pontos em discussão. Da capital portuguesa devem sair linhas claras que apontem para uma redefinição estratégica que poderá levar ao reforço da matriz de manutenção da paz e segurança.

A interminável guerra no Afeganistão, naquele que foi o primeiro conflito da Aliança Atlântica fora da Europa, marcará, necessariamente, os trabalhos.

Dia 15, David Cameron foi categórico ao garantir que os militares britânicos deverão sair do Afeganistão até 2015. “Eu disse que as nossas forças de combate estariam fora do Afeganistão até 2015”, recordou o Primeiro-Ministro do Reino Unido, num discurso sobre política externa.

O chefe do governo de ‘sua Majestade’ foi mais longe e anteviu que “a Cimeira da NATO deve marcar o ponto de partida para a passagem de responsabilidades pela segurança para as forças afegãs".

Um dia mais tarde, Washington deu sinais idênticos. A intenção de DC será deixar o país asiático pronto para assumir a responsabilidade pela sua segurança em 2014. A confirmar-se, o plano será apresentado pelo presidente Obama no Parque das Nações, em Lisboa.


Escudo anti-missil


Outro assunto polémico estará em cima da mesa: a construção de um sistema continental de mísseis, projecto associado ao controverso escudo anti-missil há muito ambicionado pelos Estados Unidos.

Está-se “muito mais perto de um consenso do que alguma vez estivemos”, afirmou, a propósito, e já esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado.

O sistema de defesa transcontinental não é uma questão pacífica, em particular no oriente europeu, mas a crescente aproximação da Casa Branca ao Kremlin deixa adivinhar um entendimento a curto ou médio prazo, até porque os receios do mundo ocidental já não têm origem na Rússia.

O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, considerou terça-feira que Medvedev sabe que a organização já não constitui qualquer ameaça para os interesses de Moscovo. “Estou convencido de que a Rússia também não é uma ameaça para nós”, acrescentou.

“Estou de acordo que devemos ser parceiros. Penso que a actual administração russa compreende que o futuro está na cooperação estreita com a União Europeia e com a NATO", declarou ao diário Kommersant.

A mira dos aliados está agora apontada a países como o Irão e a Coreia do Norte. A existência de arsenais nucleares nestes dois membros do “Eixo do Mal”, expressão do antigo presidente George W. Bush, é uma matéria sensível, à qual Estados Unidos e Europa não ficam indiferentes.

O processo está a avançar e em Maio, o Pentágono garantiu a primeira implantação de longo prazo de mísseis anti-balísticos na Europa, mais concretamente em Morag, na Polónia, a 35 quilómetros da fronteira russa. Um sinal de que a NATO precisa mais dos Estados Unidos, do que o contrário.

No velho continente, o Reino Unido e a França, que com Nicolas Sarkozy se reaproximou da Aliança, depois de quatro décadas de costas voltadas, assumiram a dianteira, secundados pela Alemanha de Merkel.

Paris e Londres juntaram-se e assinaram um pacto que permitirá a criação de uma força militar conjunta e a partilha de instalações nucleares de teste.

Num artigo publicado na imprensa do seu país, o secretário da Defesa britânico, Liam Fox, comentou: “Há muitas razões pelas quais a cooperação [com a França] faz sentido. Somos apenas duas potências nucleares da Europa”.

“Desde que o presidente Sarkozy chegou ao poder temos visto um renovado vigor na tentativa de juntar a Europa e a América numa parceria e cooperação”, regozijou-se Fox na antecâmara de um encontro político ao mais alto nível e que coloca os olhos do mundo em Portugal.

Expresso das Ilhas (Cabo Verde), 17 de Novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dilma Rousseff: A vitória de uma tecnocrata


Dilma venceu com 56,05 por cento dos votos, mas agora terá de justificar o voto de confiança e provar que percebe de política e não apenas de números.

Não será tanto pelo beijo que lhe mandou Hugo Chavez, mas o mundo está de olhos postos em Dilma Rousseff. Depois da vitória na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, onde derrotou José Serra, a sucessora de Lula da Silva tem pela frente uma empreitada de maior dimensão: manter o Brasil na senda do desenvolvimento e prosseguir a afirmação do país enquanto nova potencial mundial.

As reacções imediatas foram de encorajamento. De Obama, a Ahmadinejad – e por aqui se vê como o país sul-americano é hoje consensual – os principais líderes políticos não quiseram deixar de saudar a terceira vitória presidencial consecutiva do Partido dos Trabalhadores (PT).

Sem grande surpresa, Dilma apressou-se, logo na segunda-feira, a garantir a continuidade das políticas de Lula e descartou a aplicação de medidas radicais para controlar o valor da moeda.

“Vou olhar com muito cuidado para as taxas de câmbio porque não creio que manipular resolva alguma coisa. Teremos um câmbio flutuante e reservas que permitem defendermo-nos das manipulações internacionais”, garantiu numa entrevista televisiva à rede Globo.

Antes, a presidente eleita já tinha advertido que o seu Governo vai actuar com “rigor” nas questões da taxa de câmbio de moeda e considerou não ser possível aplicar políticas do passado, como a desvalorização competitiva.

A futura inquilina do Palácio do Planalto lembrou que não poderá contar inicialmente com a robustez das principais economias e defendeu o fim do proteccionismo dos países ricos. “É necessário estabelecer no plano multilateral regras muito mais claras e mais cuidadosas”.

“Actuaremos firmemente nos fóruns internacionais com esse objectivo”, garantiu.

Por outro lado, após a oficialização da vitória, Rousseff reforçou que uma das metas do seu Governo será a erradicação da miséria e assumiu como um dos seus primeiros compromissos “honrar as mulheres brasileiras” e “valorizar a democracia” em todas as suas dimensões.

O voto feminino terá sido decisivo para garantir a eleição daquela que será a décima segunda mulher a chegar ao mais alto cargo da magistratura de um estado americano.

No discurso da vitória, Dilma reforçou também que não descansará “enquanto houver fome” no Brasil e pediu a ajuda de todos para que o país possa atingir os mais altos patamares do desenvolvimento: “esta ambiciosa meta é um apelo à nação. Peço, humildemente, o apoio de todos para superar este abismo que ainda nos separa de sermos uma nação desenvolvida”, afirmou aos seus apoiantes, antes de agradecer a Luís Inácio Lula da Silva o apoio manifesto.

“Ter a honra de seu apoio, o privilégio de sua convivência, são coisas que se guardam para a vida toda. Conviver durante todos esses anos com ele [Lula] deu-me a exacta dimensão do governante justo e do líder apaixonado pelo seu país”, assegurou.

A colagem a Lula ter-lhe-á garantido parte do bom resultado que conseguiu. Mas a aproximação ao ainda presidente implica que a imprensa internacional coloque a eleita na sombra do cessante.

O New York Times destacou que o actual perfil positivo do Brasil no cenário internacional “pode cair com Dilma, porque ela não possui o carisma de Lula e mostrou pouca inclinação para entrar nas arenas diplomáticas globais, em que Lula construiu um nome para si e para a nação".

Em França, o Le Monde avançou com os “benefícios do apoio de Lula da Silva”, escrevendo que é a “herdeira política era dada como vencedora devido ao crescimento espectacular” do Brasil.

Dilma Rousseff é mais técnica que política. A eleição presidencial foi a sua estreia numa disputa eleitoral e agora cabe-lhe mostrar serviço. Alguns analistas dizem que cumprirá apenas um mandato, abrindo caminho para o regresso do seu mentor, dentro de quatro anos.


Preparativos para o novo governo

À margem das especulações, a presidente eleita já começou a montar a sua equipa de transição. O primeiro passo foi chamar os aliados mais próximos para uma reunião privada, na última segunda-feira, e começar a discutir as primeiras medidas a serem tomadas.

Na reunião terão estado os seus coordenadores de campanha, o presidente do PT e o deputado José Eduardo Cardoso.

Ao que tudo indica, Paulo Bernardo, actual ministro de Lula, deverá transitar para o futuro executivo, assumindo o lugar de chefe da Casa Civil.



Expresso das Ilhas de 3 de Novembro de 2010

Gente Normal (crónica)


Barlavento, de 11 de Novembro de 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Entrevista a João Branco: "O Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo era e que luta para ainda ser"


Principal evento teatral do país, o Mindelact cumpre, em 2010, a sua décima sexta edição. Depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República, João Branco, antecipa o que aí vem e comenta a falta de uma estratégia pública que torne a criação artística uma prioridade nacional.

Em 1995, o que é que esteve na base da fundação do Festival Mindelact?

Várias coisas. Uma delas foi o facto de nos termos apercebido de que, depois do movimento que a cidade tinha em Agosto por causa do festival Baía das Gatas, ela morria um pouco em Setembro, altura em que praticamente não acontecia nada. Sendo a nossa área o teatro, achámos que seria interessante avançar, de forma consequente, para um evento teatral.

Quem é o “nós” a que te referes?

O conjunto de pessoas que resolveram avançar com isto. Actores, actrizes, gente do teatro.A primeira edição teve a participação de três grupos, dois de São Vicente e um de Santo Antão e ainda foi realizada de forma um pouco improvisada, digamos assim. Só depois é que foi fundada a Associação Mindelact. Em 96, então, já foi um festival bastante maior, com 24 dias de duração e grupos de praticamente todas as ilhas de Cabo Verde.

Quando é que acontece a internacionalização?

A internacionalização dá-se em 97, graças a uma co-produção entre a Mindelact e Associação Cena Lusófona, de Portugal, que realizou uma Estação em Cabo Verde, no âmbito do festival. Por isso é que costumo dizer que, para nós, o festival mais importante foi o de 98, porque foi o primeiro com carácter internacional, produzido sem a ajuda directa de nenhuma instituição. Nesse ano o desafio era provarmos a nós próprios que seríamos capazes de continuar a ter um festival internacional.

O que é que a edição de 2010 apresenta de novo?

Procuramos sempre inovar, através de propostas teatrais que, do ponto de vista estético e da temática, tragam algo de novo às pessoas. O investimento que é feito, tanto por nós, como pelo Estado de Cabo Verde, pelas empresas que nos apoiam, pela Cooperação Internacional dos diversos países ou pelos próprios grupos que participam, é muito grande. Por isso, convém que cada espectáculo, por si, valorize esse investimento e essa valorização pode ser feita pela qualidade, mas também pela novidade em relação ao tipo de texto, à estética da peça ou ao lugar em que é apresentado.

Este ano, essa componente da inovação é muito marcante. Seja pelo espectáculo de abertura do Leo Bassi – que é um provocador nato – ou pela apresentação que vai decorrer num vulcão extinto. Paralelamente, vamos ter teatro um pouco por todo o lado. No fundo, todas as propostas que procuramos trazer, têm algo de novo, para além da preocupação de qualidade.

O Mindelact, com as características que tem, só faz sentido em São Vicente?

O Mindelact é o que é por ser nascido aqui e o próprio nome do festival tem o nome da cidade. Não é que não possa haver outros festivais noutras cidades, mas inevitavelmente iriam ter um espírito diferente.

Cada cidade tem a sua alma própria e o Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo é. Melhor, acho que o Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo era no passado e que luta para ainda ser hoje: uma cidade cultural, desperta, que se interessa, que provoca, que reivindica.

O Mindelo deixou de ser assim?

São os novos tempos. As pessoas são cada vez mais individualistas, menos colectivistas. O problema de uma cidade, já não é o teu problema. Só será o teu problema se te entrar pela casa adentro. É como a história da dengue. As pessoas só se preocupam com a dengue quando algum familiar, amigo ou conhecido está em perigo de vida.

O Mindelo de hoje é uma cidade que não se preocupa, que não tem o espírito de criatividade e de reivindicação que tinha há algum tempo.

Como tinha em 95?

Creio que sim. Aliás, se não tivesse, o Mindelact não tinha nascido.

Este ano vão experimentar uma extensão na Praia.

Essa extensão surge um pouco como tudo no Mindelact. Toda a estruturação da programação, com o Palco Principal, o Festival Off, o Teatrolândia e agora o Teatro Periferia, foi surgindo motivada pela necessidade de inovação e de diversificação dos públicos. Para nós, este é um festival que deve ter um cunho social muito importante.

A cidade da Praia tem tido vários eventos inovadores, seja no domínio das artes plásticas ou da música. Achámos que seria a altura de fazer uma extensão do Mindelact e fazemo-lo sem qualquer tipo de complexos. Até para lutar contra alguns tipos de preconceitos. Isto não é um Praiact, É uma extensão do Mindelact na cidade da Praia. São duas coisas muito diferentes. E que só foi possível porque houve duas instituições locais, o Instituto Camões – Centro Cultural Português e a Câmara Municipal da Praia, que aceitaram ser parceiros nesta aventura.

Tendo em conta esses preconceitos, a extensão não pode ser entendida como uma provocação?

Eu já ouvi coisas do género “então já não basta estar tudo lá, ainda vão fazer o festival na Praia?”. É apenas uma extensão. Isso acontece em todo o mundo. Em Portugal, o Festival de Teatro de Almada, que é o maior festival do país, tem espectáculos em Lisboa, no Porto e noutros locais.

O mais importante desta extensão é dar oportunidade às pessoas que vivem na Praia, e muitas delas até são de São Vicente, de usufruírem dos espectáculos que nós conseguimos trazer ao Mindelo.

O Mindelact serviu para formar um público?

Não só o festival, como também os cursos de teatro do Centro Cultural Português. Quando tu dás um curso de iniciação teatral estás a passar um determinado tipo de informação e estás também a formar um espectador especializado. Esse espectador, quando vai ao teatro, leva um primo, um amigo ou a namorada e vai passar a informação para alguém que, por sua vez, começa também a ver o teatro de outra forma.

A formação e o festival têm sido fundamentais e hoje o público do Mindelo é generoso e, sobretudo, muito conhecedor.

Para além de que, quem vai ao teatro no Mindelo não aceita que o espectáculo co mece com mais de cinco minutos de atraso. Só isso, é um avanço considerável.

Cultura em Cabo Verde

Faltam palcos em Cabo Verde?

O Mindelact é um grande palco e tem sido um factor motivacional. A paixão pela arte não é tudo. Tens de ter condições, tens de ter salas de ensaio, tem de haver lugar para apresentar os espectáculos.

O facto de o Mindelact existir, torna a participação no festival como uma meta. Muitos grupos de teatro ainda existem pelo facto de terem essa perspectiva de participarem no festival.

O que falta em Cabo Verde são outros factores que deveriam existir e não existem. É uma questão de tu teres espaços públicos e esses locais programarem espectáculos com grupos de teatro nacionais.

O que falta, é tu teres alguém, responsável por um espaço público, seja um Auditório Nacional ou um centro cultural, que chame os grupos de teatro e lhes diga que quer apoiar o seu trabalho.

De que forma?

Se numa cidade existem seis grupos de teatro, se um ano tem doze meses, então cada grupo tem dois meses para apresentar uma peça. Em contrapartida, a sala ganha a possibilidade de ter uma programação própria de teatro. São coisas relativamente simples de fazer e que não são feitas.

E as infra-estruturas que existem são suficientes?

A questão que se põe é o que se faz com o pouco que se tem. Eu não acho que a solução seja gastar milhares de contos a fazer um espaço todo novo e multifuncional. Com certeza, seria bom, mas se calhar seria melhor apostarmos naquilo que temos.

Eu continuo a achar estranho que o Auditório Nacional, na capital de Cabo Verde, tenha a sua gestão privatizada. Um Auditório Nacional tem de ter uma direcção artística, um corpo técnico próprio e uma programação própria, que é uma programação que o Estado coloca à disposição das pessoas, como acontece com os teatros nacionais, em qualquer país do mundo. Na prática, temos ali um palco que existe mas não está disponível.

No Mindelo temos o Éden Park.

O Éden Park, que está praticamente sem salvação. Esteve durante os últimos dois anos a apodrecer à vista de todos, o que quer dizer que neste momento já está podre. Se calhar a solução não era fazer outro teatro. Era, isso sim, arranjar maneira de comprar aquele edifício, fazendo jus à sua história e importância que ele tem para a cidade, e transformar aquilo num centro cultural, palácio da cultura ou teatro municipal.

A cultura é esquecida entre quem decide?

Uma grande entrevista de um grande estadista cabo-verdiano abrange todos os temas, menos um. Há ali um nicho que é sempre esquecido. A cultura cabo-verdiana é um lugar pequenino que nunca é considerado, mas que de facto é o que dá força a todo o resto.

O que eu penso é que há muita coisa por fazer. Fala-se em mudança de paradigma e de economia de cultura e há dez anos que estamos às voltas com os mesmos temas.

Acho que existe uma falta de conhecimento muito grande e existe uma máquina no Estado que emperra um pouco as coisas.

Há dois anos foi feito um fórum, muito abrangente, com artistas de todas as áreas. Saí de lá bastante entusiasmado com os resultados. Uma das coisas que foi prometida é que no espaço de seis meses seria apresentado um plano estratégico para a cultura. Já passaram dois anos e esse plano não apareceu. É preciso agir mais e mais depressa, sobre novas bases.

Que importância atribuis à condecoração que recebeste há dias?

Acho que foi muito importante essa distinção, por várias razões. Para mim foi importante que o teatro e a dança tivessem sido contemplados neste tipo de condecorações que muitas vezes, por razões óbvias, se lembram apenas da música

Depois, é um factor de orgulho e motivação, de satisfação pessoal e colectiva, que eu devo partilhar com quem trabalhou comigo ao longo dos últimos anos, até porque no teatro ninguém faz nada sozinho.

O que é que faz uma boa política cultural?

Essencialmente é entender alguma coisa de cultura. A primeira coisa a entender é que os artistas cabo-verdianos não são subsidio-dependentes, como algumas pessoas gostam de fazer passar. Ser um músico, encenador ou artista plástico é tão importante como ser advogado. Ter um centro cultural é tão importante como ter uma escola ou um campo de futebol.

Mudar mentalidades é colocar a cultura num patamar que corresponda à importância real que ela tem para o país. É preciso que as pessoas levem estas coisas um pouco mais a sério. Enquanto continuarmos a considerar que o artista é um coitadinho e que a cultura é uma coisa anexa, não vamos a lado nenhum. A cultura é uma coisa estrutural e estruturante.

Para um homem do palco, como tu, o trabalho artístico em Cabo Verde é diferente daquele que se experimenta noutros países?

Completamente diferente. Há uma energia, uma emanação, um lado humano e um compromisso que não encontras noutro lugar. A mim o que me assusta é que isso se está a perder.



Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 457 / foto: Anselmo Fortes

domingo, 11 de julho de 2010

Viagem do torno à prensa


Há uma década que, no Mindelo, a família Alves faz da formação profissional em metalomecânica o seu modo de vida. A escola que lhes paga as contas é a tábua de salvação para muitos jovens que procuram uma alternativa para o mais que certo desemprego.

Antes de regressar a Cabo Verde, Augusto Alves, ou Ti Nené, como é conhecido, andou pelo mundo, a bordo de um dos gigantes que cruzam os oceanos. Um dia, algures nos finais da década de 70, apercebeu-se de um futuro não muito risonho em perspectiva e decidiu trocar o mar por terra firme. No arquipélago, casou-se e instalou-se por conta própria. O marinheiro tornou-se técnico metalomecânico e começou, então, a escrever a história que o levou até à Escola de Formação Profissional Padre Filipe Pereira (EFPPFP), de onde, em finais de Junho, um grupo de 15 jovens saiu com um diploma na mão.

Por entre as máquinas, a maior parte delas nascidas das sua mãos, Mestre Nené circula com a ligeireza de quem conhece o chão que pisa. O pavilhão que é hoje a escola profissional que, em conjunto com a mulher, dirige desde o final da década de 90, é, em grande medida, a sua casa. Por lá passa a maior parte dos dias. A ensinar ou a imaginar – e a desenhar – os futuros engenhos que, depois de vendidos, asseguram o financiamento do projecto.

Constituída como uma sociedade por quotas, a EFPPFP subsiste das receitas que consegue gerar, seja pela venda de equipamentos, ou pela prestação de serviços a terceiros. Anilda Alves, fundadora e directora-geral da instituição, acredita que, pelas suas características, muitos ainda olham com alguma desconfiança para o estabelecimento de ensino privado.

“O nosso funcionamento é subsidiado pela prestação de serviços a terceiros. Trabalhamos na área naval, na construção civil e em muitas outras áreas. Há sempre dificuldades em conseguir apoios. O que é certo é que estamos a fazer um trabalho sério”.

Ainda assim, algumas das acções de formação têm o apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Começou ontem o quinto curso co-financiado. Anilda não sabe quantos técnicos a escola formou. Depois de mais de uma década de actividade, serão algumas dezenas, por certo. Jovens a quem foi dado um rumo de vida e ensinada uma profissão.

“O mais aliciante é a garantia de que, no futuro, que faz o curso, não vai passar mal. Quem sabe fazer alguma coisa, safa-se na vida. E esta é uma formação polivalente, que dá capacidades em várias áreas”, explica o Mestre Nené. “Porque é que havemos de ser vassouras, quando podemos ser oficiais?”, questiona.

Tudo começou em 1998. Depois de uma experiencia empresarial mais tradicional, também ela com uma “preocupação pedagógica”, Anilda e Nené, marido e mulher, optaram por um novo investimento que juntasse o útil ao agradável.

A escola abriu portas, embora só tenha sido oficialmente reconhecida como tal em 2001. Os primeiros anos de actividade foram singulares. Na fundação, um projecto levou crianças de rua a aprender um ofício. Depois, um programa pioneiro de artesanato em madeira, que viria a ser interrompido a meio.

Actualmente, a formação centra-se na metalomecânica. A preocupação é dotar os formandos das “competências necessárias para serem capazes e fazer mais do que uma coisa”.

“Sabemos que o mercado de trabalho em Cabo Verde é limitado”, justifica a directora. “A formação não pode ser demasiado especializada, senão vai haver um afogamento”, esclarece.

“O jovem é treinado versatilmente. De tal forma que, quando não houver trabalho numa área, ele tem capacidade, de passar para outra”.

Cada curso dura 9 meses. Um ano lectivo de formação intensa, com uma forte componente prática, sem descurar as bases teóricas. Matemática, geometria e desenho técnico são algumas das disciplinas que constam do plano curricular.

“Os alunos têm 9 meses de grande aprendizagem. O aluno, nos primeiros tempos, começa a ter noção de todo o funcionamento da escola, das máquinas e de como é que se trabalha. Mas não perdemos muito tempo com teoria. Estes jovens já saem da escola com a cabeça preguiçosa. Apostamos, fundamentalmente, na componente prática”.

Projecto de vida

A Padre Filipe é também uma escola para a vida. A maior parte dos alunos que frequentam os cursos profissionais têm um historial de insucesso escolar e a formação profissional é a última alternativa, a derradeira possibilidade de adquirir habilitações que possibilitem encarar o futuro com algum confiança.

Os responsáveis defendem que, mais importante do que a escolaridade adquirida, o sucesso reside na “capacidade latente na própria pessoa”.

Dia após dia, Ti Nené regista a evolução dos seus alunos. “Quando chegam, a cabeça está a zero. Depois de oito ou nove meses connosco, já não se sentem perdidos. Sentem que tem qualquer coisa para suportar o peso do mundo. Estão orientados”.

“A Terra está um bocado perigosa para obter trabalho. Mas haverá sempre alguma coisa para construir ou reparar”, sustenta, com uma certeza: “tenho confiança de que estes que passaram por aqui não vão ser bandidos”.

Foi à procura de certezas que Élvis Guilherme bateu à porta da EPPJP. O pai, amigo de longa data do ‘mestre do ferro’, falara-lhe do que por lá se faz. Curioso, com o décimo primeiro ano incompleto, e aos 22 anos, foi saber mais. Gostou do que lhe disseram e inscreveu-se. Agora, com o diploma na mão e enquanto não consegue emprego, ocupa-se a exercitar o que lhe ensinaram.

“Sempre quis fazer alguma coisa, sempre quis aprender um ofício. Surgiu esta oportunidade e resolvi agarra-la”.

Élvis gostou da experiência - “o curso foi espectacular, muito bom e aprendi muitas coisas” - e reconhece a utilidade dos meses que passou a soldar e a furar: “acho que já começou a ser útil para mim. Mudei a minha maneira de ver as coisas e encaro a vida com mais responsabilidade e confiança. Daqui para a frente quero arranjar um trabalho”.

Da mesma opinião partilha David Santos. Já formado, continua a ocupar o tempo livre por entre as máquinas nas quais aprendeu a ser metalomecânico. “Já ouvira falar do Mestre Nené há muito tempo e sempre quis vir para aqui”. Terminou o décimo segundo ano e matriculou-se. “Agora quero arranjar um emprego”.

Para Ti Nené, o momento em que um aluno acaba a sua formação é o mais reconfortante. “É para isso que cá estamos”. “O dever cumprido é o mais importante. Sentimo-nos reconfortados pelo que fazemos”.

Anilda e Ti Nené poderiam ter optado por outro modelo de negócio. Antes da escola, dirigiam uma empresa que, confrontada com dificuldades de mercado, acabou por fechar. Tendo com único diploma o de marinheiro, passado no Mindelo, ainda no tempo colonial, Mestre Nené aprendeu metalomecânica com a vida. “Nunca tive dificuldade em mudar de profissão e adaptar-me a novas circunstâncias”. É com “muito gosto” que mantém a escola de portas abertas e a escolha pela via da formação profissional acabou por ser natural.

“Percebemos que havia uma grande carência de mão-de-obra qualificada”, avalia Anilda Alves. “O espírito é muito diferente do que numa empresa normal. É melhor formar pessoal e elevar essa rapaziada a um nível bom. Temos a certeza que qualquer um destes homens, no mercado internacional, se safará sem grandes dificuldades. É uma grande alegria vê-los sair daqui com bases que fazem sucesso com qualquer empresário”, acrescenta o marido.

O futuro

Nos anos 60, Filipe Pereira, padre, foi o primeiro director do colégio dos Salesianos, em São Vicente. A instituição, que continua hoje uma referencia na ilha, foi pioneira na formação profissional. Augusto Alves quis homenagear a figura histórica do Mindelo e optou pelo nome do sacerdote para a escola profissional que fundou.

A EFPPFP funciona hoje num armazém na estrada para Calhau. Embora amplo, o espaço é insuficiente. Nele já não cabe a ambição do casal, que sonha com melhores condições, para alargar a oferta formativa. Em estudo, a criação de um curso em mecânica auto, a par de um outro, em electricidade. Tudo dependerá, contudo, da concretização do projecto de arquitectura, já aprovado, mas que, por falta de financiamento, continua dentro da gaveta.

Quando estiver concluída a ampliação, a Escola Filipe Pereira terá mais quatro salas, com fins diversos, da biblioteca à informática. “A minha ambição”, explica Anilda, “é alargar a escola, no sentido de termos mais alunos, e criarmos mais áreas de formação, com um staff maior”. A directora não tem dúvidas: “é um sonho para se concretizar aos poucos”.


publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde) de 7 de Maio de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sete horas com o santo às costas


Todos os anos, a tradição cumpre-se em Santo Antão. Durante as festas do padroeiro, milhares de pessoas fazem a pé os mais de vinte quilómetros que ligam Ribeira das Patas ao Porto Novo.

“Ide em paz e que o senhor vos acompanhe”. Com a bênção final, ao encerrar a breve oração colectiva, Pier Aldo, pároco de Porto Novo, marca o início da peregrinação para as centenas de fieis que, no início da manhã de 23 de Junho, se aglomeram nas imediações da igreja de Ribeira das Patas. Todos os anos é assim. Na véspera do São João, a imagem do padroeiro sai do altar onde repousa e é transportada, ao longo de quase 25 quilómetros, serra abaixo, até à cidade de Porto Novo.

O dia começou cedo para Antonieta Carvalho. Há uma década, “sem nunca falhar”, que cumpre a tradição de, na véspera do dia feriado, sair da cama mais cedo do que o costume. “Pelas cinco horas já estava de pé”, revela. Depois de um pequeno-almoço reforçado, parte de casa dos familiares que a recebem – é de São Vicente – e percorre, desta vez de carro, a estrada que a conduzirá até à povoação à qual todos os caminhos parecem levar.

“A manhã vai ser longa e por isso é importante estarmos bem alimentados”, considera. “O que me move é uma grande fé a São João Baptista. É muito bonito fazer este caminho”.

Pontualmente, às oito da manhã, a imagem está no adro. Serão precisas sete horas até que o cortejo entre na cidade. Durante esse tempo haverá sempre alguém a tocar tambor ou a dançar ao compasso do som da percussão.

A temperatura aumentará e o calor recordará porque é que esta é uma terra árida. Às 8:30, uma primeira pausa. Alguns minutos bastam para recuperar energias. Com o sol a subir no céu, abrem-se as primeiras garrafas de cerveja. O grogue há muito que vai enchendo os copos de plástico.

Carrinhas, com ‘lanchonetes’ mais ou menos improvisadas, socorrem a sede e a fome dos peregrinos. Tanta gente junta será sempre uma boa oportunidade de negócio.

O ‘sumo de cevada’, em garrafas de 25 centilitros, é o que tem maior saída, mas também há refrigerantes, água, pastéis, torresmos e moreia. É só escolher.

A massa humana aumenta com os quilómetros percorridos. A cada instante, uma nova cara junta-se à caminhada. Muitos levam ao pescoço peculiares rosários, com contas feitas de mancarra, massa de pão ou pipocas. Pelas 9 horas, já é difícil perceber onde começa e acaba o grupo.

Matar saudades

Acima de tudo, a peregrinação de São João Baptista é um grande momento de festa. De toda a ilha, mas também do resto do arquipélago e da emigração, acorre gente movida não só pela fé, mas pela oportunidade de rever velhos amigos e familiares.

Isaurina Silva vive nos Estados Unidos. A viagem de avião entre Boston e a Praia demora quase tanto quanto o trajecto que se propõe a fazer. Nasceu em Santo Antão, mas partiu cedo, procurando fugir à pobreza e à aridez da terra. Regressa uma vez a cada doze meses, mas fá-lo em estreia durante as festas do padroeiro. Às dez e meia, depois de Lagedos e antes de Ponte Sul, segue caminho com uma garrafa de água na mão, acompanhada pela filha.

“Nunca tinha vindo. Felizmente, este ano, consegui tirar férias nesta altura. Estou cansada mas a gostar muito. Devagar se chega lá”.

Em menos de três horas já reviu amigos de infância e familiares afastados a quem tinha perdido o rasto. “Já vi gente de quem não sabia nada há muitos anos. Uns estão na Holanda, outros em Portugal e outros ficaram mesmo aqui”.

Em cada povoação, um altar, para fazer descansar as costas dos que carregam São João Baptista, e uma mesa, para aliviar os estômagos madrugadores.

Quem conta um conto

Diz o povo que quem conta um conto, acrescenta um ponto. A julgar pelas variações existentes em torno dos motivos que levaram à criação da peregrinação, talvez o ditado tenha razão de existir.

Todas convergem, contudo, na certeza de que terá começado quando uma imagem do agora padroeiro foi encontrada à beira-mar. Uma mulher transportou-a para uma gruta, transformando-a em local fé. João Baptista foi o último dos profetas. Considerado pelos cristãos como o anunciador de Jesus Cristo, baptizou muitos judeus, incluindo Jesus, no rio Jordão.

Alberto Lima não conhece a lenda. “Não faço ideia de onde é que vem a tradição”. Com 21 anos, nunca ouviu falar de um santo numa gruta. O que sabe – até porque, na circunstância, é isso que lhe importa – é que, “ainda faltam muitos quilómetros” até ao fim da empreitada. Como os termómetros para lá dos trinta graus, a camisola preta não terá sido uma grande ideia. “Só reparei quando o sol começou a bater com força”.

Como todos os outros caminhantes, Alberto e os amigos hidratam-se. A diferença estará, por ventura, na bebida escolhida. “O que é isso aí na garrafa?”. “Não faço ideia”.

A um passo do final

Quando acaba o empedrado, começa a poeira. Cinco horas depois dos primeiros passos, uma estrada em obras é só mais um obstáculo, até porque nada quebra o entusiasmo de quem já vê, ao longe, a cidade que é o destino final.

Inaugurada há um ano, a nova capela de São João está de portas abertas e, aos poucos, enche-se de fiéis. Alguns desistentes chegam de carro. Entre os que resistiram, aqueles que têm o passo mais ligeiro, são os primeiros a tomar o seu lugar naquele que será o último grande momento, antes da entrada no Porto Novo. Os obstinados seguem adiante, sem paragens.

Às duas da tarde, milhares de pessoas compõem o cenário. Rostos cansados e transpirados de quem acaba de cumprir o desafio a que se propusera. Transposto tudo o resto, o que falta até à igreja paroquial já não é mais do que um pequeno passeio. Lá estarão ao bater das 15 horas.


Publicado no Expresso das Ilhas de 30 de Junho de 2010