quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dois anos que [realmente] mudaram o mundo

A abertura democrática em Cabo Verde e realização das primeiras eleições livres no arquipélago aconteceram depois de um período de grandes alterações na sociedade das nações. A queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e o desmoronamento da União Soviética foram o prelúdio de uma nova era global, em que o mundo ainda assistiu à invasão do Kuwait e à eleição de Slobodan Milosevic e parou para, emocionado, acompanhar a libertação de Nelson Mandela.


1980: E o muro finalmente caiu

Janeiro, 20. Nos Estados Unidos, uma mudança de protagonistas: George Bush, pai, toma posse como presidente. Sucede no cargo a Ronald Reagan, o mesmo que, em 1983, ao dirigir-se à Associação Nacional de Evangélicos, em Orlando, Flórida, afirmara acreditar que “o comunismo é um capítulo triste e bizarro da história humana”.

Ainda Bush não aqueceu o lugar e no Afeganistão, a União Soviética põe fim a nove anos de ocupação. A última coluna militar abandona simbolicamente Cabul a 2 de Fevereiro.

Do outro lado do globo, a queda de um ditador: Alfredo Stroessner, à frente dos destinos do Paraguai desde 1954, é derrubado depois de um golpe militar.

Da URSS, um sinal: as eleições de Março para o Parlamento ditam um enfraquecimento da posição comunista. Poucas semanas mais tarde, a 7 de Abril, um dos submarinos da potência bélica afunda-se no mar de Barents e leva consigo a vida de 41 homens.

Na Europa de Leste, Lech Walesa assiste finalmente à legalização do seu Solidariedade que é autorizado, ao mesmo tempo, a participar, nas eleições agendadas para 4 de Junho.

Por esta altura já o velho continente respira ventos de transformação. A diplomacia intensifica a sua actividade. Torna-se cada vez mais evidente que a cortina de ferro está prestes a abrir-se. Antevendo o que Novembro significaria, a Hungria entreabre a sua parte: 240 quilómetros na fronteira com a Áustria. Foi a 2 de Maio.

Nesse mesmo mês, 12 dias mais tarde, Gorbachev, o mesmo que viria a ganhar o Nobel da Paz pelo seu contributo para o fim da Guerra Fria, aterra na China. Foi a primeira visita a Pequim de um líder soviético em quase 40 anos.

Mikhail pisa o solo da República Popular num período conturbado para os propósitos do partido único chinês. Em Tiananmen desenha-se aquele que viria a ser um dos mais sangrentos massacres da história. A 4 de Junho, os militares disparam indiscriminadamente sobre os manifestantes, na sua maioria estudantes e intelectuais. Terão morrido alguns milhares de pessoas. Os números oficiais indicam apenas 241 baixas, mas um documento secreto do KGB, recentemente tornado público, avança com 3 mil vítimas mortais.

No dia 19, o activista Tadeusz Mazowiecki, do partido polaco Solidariedade, é escolhido, no seu pais, como primeiro chefe de governo não comunista em 42 anos.

Enquanto a Polónia reage à escolha de um novo rumo, Austríacos e Húngaros sentam-se no chão e partilham uma refeição lendária. As fronteiras entre os dois países são abertas – ainda que timidamente – para um piquenique que funciona como antecâmara do tratado rubricado a 23 de Agosto e que elimina, definitivamente, as restrições que, durante anos, mantiveram os dois países vizinhos de costas voltadas. Dois meses mais tarde viria a ser proclamada a nova República da Hungria, sem o Popular que até então prevalecera.

Estava ferida de morte a divisão a que a Europa e o mundo estavam condenados desde o final da II Guerra Mundial, como doente estava Erich Honecker. A 18 de Outubro, o líder comunista da Deutsche Demokratische Republik, República Democrática da Alemanha, não tem outra solução: abandona o poder. Dias mais tarde, o governo segue-lhe o exemplo e deixa o Presidente Egon Krenz sozinho e sem base de apoio.

A 9 de Novembro, um lapso acaba por precipitar o que já se percebia ser inevitável. Em conferencia de imprensa, Günter Schabowski antecipa-se e informa, em directo para quem o quis ouvir, que a partir daquele momento é possível viajar entre os dois lados do ‘muro da vergonha’. A euforia toma conta dos populares e as imagens que se seguem perpetuam-se através das objectivas dos fotógrafos e lentes dos repórteres de imagem.

Ainda muitos alemães não chegaram à cama e, na Bulgária, o dia 10 amanhece com uma mudança de nomes: Petar Mladenoy substitui Todor Zhivkov e muda o nome do partido Comunista, que daí por diante passa a ser Socialista.

A queda do Muro de Berlim acaba por ser a inspiração que faltava para uma série de alterações profundas que se seguiram. Na América latina, o Brasil realiza, no dia 12, as primeiras eleições presidências livres desde 1960. Em pouco tempo, pela primeira vez na história, todos os países daquela região do globo, com excepção de Cuba, serão dirigidos por governos constitucionais.

Dia 17, a então Checoslováquia salta para as primeiras páginas dos jornais. Em Praga, milhares de estudantes iniciam um protesto pacífico contra o regime comunista. O número de manifestantes cresce ao longo dos dias seguintes e, a 20 de Novembro, atinge os 500 mil. Perante a pressão popular, o Partido checo anuncia a abertura do regime a outras forças politicas. Semanas depois, as eleições ditam a escolha de um governo com uma nova cor.

A 3 de Dezembro, um encontro histórico junta George Bush e Mikhail Gorbachev, em Malta. No final da reunião, os dois líderes mundiais anunciam aquilo que todos esperavam ouvir: a guerra fria está prestes a tornar-se apenas uma recordação.

Antes do Natal, na Roménia, e depois de uma semana violenta, marcada pela morte de muitos opositores, as operações militares contra os revolucionários chegam ao fim com sucesso para aqueles que exigem a queda do ditador Nicolae Ceausescu, que é executado, com a sua mulher, no dia 25, acusado de crimes contra a humanidade.

Ceausescu morre quatro dias antes de Václav Havel ser eleito presidente da agora República Checa.




1990: Mandela livre e Kuwait ocupado

Por instantes, a queda do Muro de Berlim criou a ilusão de que a paz se tornou um paradigma mundial. Cedo se percebeu, contudo, que a expectativa daria lugar à frustração.

Janeiro começa com uma grande manifestação na Lituânia. Os protestos centram-se num único propósito: a independência.

Ímpetos independentistas que se alastram, ainda em Janeiro, ao Azerbeijão. Sob as ordens de Gorbachev, o exército soviético ocupa a cidade de Baku. Resultado: 130 mortos e 700 feridos.

Mas a história faz-se de detalhes. No último dia do primeiro mês de 1990 abre em Moscovo o primeiro McDonald’s. Milhares de pessoas correm para experimentar o sabor do Big Mac.

No extremo sul do continente africano as atenções centram-se num único homem: Nelson Mandela. Depois de 27 anos atrás das grades, Mandela é libertado a 11 de Fevereiro, no cumprimento de uma promessa feita pelo presidente sul-africano, F.W. de Klerk. 48 horas mais tarde, as duas Alemanhas assinam um plano para a reunificação.

Depois das manifestação de Janeiro, em Março, a Lituânia volta às primeiras páginas dos jornais, ao proclamar a sua independência. A declaração formal é feita no dia 11 e recusada pela União Soviética menos de uma semana depois.

A 21 de Março, a Namíbia retoma a soberania, depois de 75 anos de domínio da África do Sul.

É preciso esperar pelo primeira dia de Junho para que se assista a um dos momentos mais importantes no caminho para o fim da guerra fria. Os presidentes norte-americano e soviético rubricam o tratado que determina o fim da produção de armas químicas e a destruição dos respectivos stocks.

No mês seguinte, a Bielorrússia diz para quem a quiser ouvir que, a partir daquele momento, é um estado soberano.

Acreditava-se num futuro de paz e foi Saddam quem mostrou que a ideia era apenas uma utopia. A 2 de Agosto o Iraque invade o Kuwait e dá início a uma escalada de tensão no médio oriente, que tem o seu apogeu em 91, com a eclosão da Guerra do Golfo.

Com as atenções centradas nos propósitos do ditador iraquiano, o verão de 1990 produz ainda uma notícia esperada: República Federal da Alemanha e República Democrática da Alemanha voltarão a ser uma só nação a partir de 3 de Outubro. O processo de reintegração ficaria completo menos de um ano depois da queda do muro.

Chegados a Outubro, e já depois da declaração unilateral da independência do Azerbeijão, um anúncio: o comité Nobel decide galardoar o presidente Mikhail Gorbachev com o prémio Nobel da paz.

Em Novembro, o Conselho de Segurança das Nações unidas aprova a Resolução 678, que autoriza a guerra no Iraque. É dado um prazo ao governo de Saddam Hussein para que ordene a retirada das suas tropas dos territórios ocupados do Kuwait até 15 de Janeiro de 1991. Data limite que, como se sabe, não chega a ser cumprida.

Apesar da guerra eminente, não passam despercebidas dois outros destaques de primeira página. A 9 de Dezembro, na Polónia, Lech Walesa é eleito, à segunda volta, e confirmado como Presidente da República. O mesmo cargo que, na Sérvia, é assumido por um homem que o mundo passa a conhecer pelas piores razões: Slobodan Milosevic.

Publicado no Expresso das Ilhas (Cabo Verde), n.º 476, de 12 de Janeiro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Adeus Afeganistão. Olá escudo anti-missil


Cimeira de Lisboa deverá ser decisiva para a definição do plano de retirada do Afeganistão e implementação do escudo anti-missil na Europa.

A partir de sexta-feira, Lisboa recebe uma cimeira de dois dias da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN ou NATO, na versão inglesa). Os 28 Estados-membros estarão maioritariamente representados pelos seus principais dirigentes políticos. Entre eles, Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, pela primeira vez em Portugal.

A NATO é hoje o único bloco do mundo de cariz unicamente militar e o seu papel no actual contexto global é um dos eternos pontos em discussão. Da capital portuguesa devem sair linhas claras que apontem para uma redefinição estratégica que poderá levar ao reforço da matriz de manutenção da paz e segurança.

A interminável guerra no Afeganistão, naquele que foi o primeiro conflito da Aliança Atlântica fora da Europa, marcará, necessariamente, os trabalhos.

Dia 15, David Cameron foi categórico ao garantir que os militares britânicos deverão sair do Afeganistão até 2015. “Eu disse que as nossas forças de combate estariam fora do Afeganistão até 2015”, recordou o Primeiro-Ministro do Reino Unido, num discurso sobre política externa.

O chefe do governo de ‘sua Majestade’ foi mais longe e anteviu que “a Cimeira da NATO deve marcar o ponto de partida para a passagem de responsabilidades pela segurança para as forças afegãs".

Um dia mais tarde, Washington deu sinais idênticos. A intenção de DC será deixar o país asiático pronto para assumir a responsabilidade pela sua segurança em 2014. A confirmar-se, o plano será apresentado pelo presidente Obama no Parque das Nações, em Lisboa.


Escudo anti-missil


Outro assunto polémico estará em cima da mesa: a construção de um sistema continental de mísseis, projecto associado ao controverso escudo anti-missil há muito ambicionado pelos Estados Unidos.

Está-se “muito mais perto de um consenso do que alguma vez estivemos”, afirmou, a propósito, e já esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado.

O sistema de defesa transcontinental não é uma questão pacífica, em particular no oriente europeu, mas a crescente aproximação da Casa Branca ao Kremlin deixa adivinhar um entendimento a curto ou médio prazo, até porque os receios do mundo ocidental já não têm origem na Rússia.

O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, considerou terça-feira que Medvedev sabe que a organização já não constitui qualquer ameaça para os interesses de Moscovo. “Estou convencido de que a Rússia também não é uma ameaça para nós”, acrescentou.

“Estou de acordo que devemos ser parceiros. Penso que a actual administração russa compreende que o futuro está na cooperação estreita com a União Europeia e com a NATO", declarou ao diário Kommersant.

A mira dos aliados está agora apontada a países como o Irão e a Coreia do Norte. A existência de arsenais nucleares nestes dois membros do “Eixo do Mal”, expressão do antigo presidente George W. Bush, é uma matéria sensível, à qual Estados Unidos e Europa não ficam indiferentes.

O processo está a avançar e em Maio, o Pentágono garantiu a primeira implantação de longo prazo de mísseis anti-balísticos na Europa, mais concretamente em Morag, na Polónia, a 35 quilómetros da fronteira russa. Um sinal de que a NATO precisa mais dos Estados Unidos, do que o contrário.

No velho continente, o Reino Unido e a França, que com Nicolas Sarkozy se reaproximou da Aliança, depois de quatro décadas de costas voltadas, assumiram a dianteira, secundados pela Alemanha de Merkel.

Paris e Londres juntaram-se e assinaram um pacto que permitirá a criação de uma força militar conjunta e a partilha de instalações nucleares de teste.

Num artigo publicado na imprensa do seu país, o secretário da Defesa britânico, Liam Fox, comentou: “Há muitas razões pelas quais a cooperação [com a França] faz sentido. Somos apenas duas potências nucleares da Europa”.

“Desde que o presidente Sarkozy chegou ao poder temos visto um renovado vigor na tentativa de juntar a Europa e a América numa parceria e cooperação”, regozijou-se Fox na antecâmara de um encontro político ao mais alto nível e que coloca os olhos do mundo em Portugal.

Expresso das Ilhas (Cabo Verde), 17 de Novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dilma Rousseff: A vitória de uma tecnocrata


Dilma venceu com 56,05 por cento dos votos, mas agora terá de justificar o voto de confiança e provar que percebe de política e não apenas de números.

Não será tanto pelo beijo que lhe mandou Hugo Chavez, mas o mundo está de olhos postos em Dilma Rousseff. Depois da vitória na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, onde derrotou José Serra, a sucessora de Lula da Silva tem pela frente uma empreitada de maior dimensão: manter o Brasil na senda do desenvolvimento e prosseguir a afirmação do país enquanto nova potencial mundial.

As reacções imediatas foram de encorajamento. De Obama, a Ahmadinejad – e por aqui se vê como o país sul-americano é hoje consensual – os principais líderes políticos não quiseram deixar de saudar a terceira vitória presidencial consecutiva do Partido dos Trabalhadores (PT).

Sem grande surpresa, Dilma apressou-se, logo na segunda-feira, a garantir a continuidade das políticas de Lula e descartou a aplicação de medidas radicais para controlar o valor da moeda.

“Vou olhar com muito cuidado para as taxas de câmbio porque não creio que manipular resolva alguma coisa. Teremos um câmbio flutuante e reservas que permitem defendermo-nos das manipulações internacionais”, garantiu numa entrevista televisiva à rede Globo.

Antes, a presidente eleita já tinha advertido que o seu Governo vai actuar com “rigor” nas questões da taxa de câmbio de moeda e considerou não ser possível aplicar políticas do passado, como a desvalorização competitiva.

A futura inquilina do Palácio do Planalto lembrou que não poderá contar inicialmente com a robustez das principais economias e defendeu o fim do proteccionismo dos países ricos. “É necessário estabelecer no plano multilateral regras muito mais claras e mais cuidadosas”.

“Actuaremos firmemente nos fóruns internacionais com esse objectivo”, garantiu.

Por outro lado, após a oficialização da vitória, Rousseff reforçou que uma das metas do seu Governo será a erradicação da miséria e assumiu como um dos seus primeiros compromissos “honrar as mulheres brasileiras” e “valorizar a democracia” em todas as suas dimensões.

O voto feminino terá sido decisivo para garantir a eleição daquela que será a décima segunda mulher a chegar ao mais alto cargo da magistratura de um estado americano.

No discurso da vitória, Dilma reforçou também que não descansará “enquanto houver fome” no Brasil e pediu a ajuda de todos para que o país possa atingir os mais altos patamares do desenvolvimento: “esta ambiciosa meta é um apelo à nação. Peço, humildemente, o apoio de todos para superar este abismo que ainda nos separa de sermos uma nação desenvolvida”, afirmou aos seus apoiantes, antes de agradecer a Luís Inácio Lula da Silva o apoio manifesto.

“Ter a honra de seu apoio, o privilégio de sua convivência, são coisas que se guardam para a vida toda. Conviver durante todos esses anos com ele [Lula] deu-me a exacta dimensão do governante justo e do líder apaixonado pelo seu país”, assegurou.

A colagem a Lula ter-lhe-á garantido parte do bom resultado que conseguiu. Mas a aproximação ao ainda presidente implica que a imprensa internacional coloque a eleita na sombra do cessante.

O New York Times destacou que o actual perfil positivo do Brasil no cenário internacional “pode cair com Dilma, porque ela não possui o carisma de Lula e mostrou pouca inclinação para entrar nas arenas diplomáticas globais, em que Lula construiu um nome para si e para a nação".

Em França, o Le Monde avançou com os “benefícios do apoio de Lula da Silva”, escrevendo que é a “herdeira política era dada como vencedora devido ao crescimento espectacular” do Brasil.

Dilma Rousseff é mais técnica que política. A eleição presidencial foi a sua estreia numa disputa eleitoral e agora cabe-lhe mostrar serviço. Alguns analistas dizem que cumprirá apenas um mandato, abrindo caminho para o regresso do seu mentor, dentro de quatro anos.


Preparativos para o novo governo

À margem das especulações, a presidente eleita já começou a montar a sua equipa de transição. O primeiro passo foi chamar os aliados mais próximos para uma reunião privada, na última segunda-feira, e começar a discutir as primeiras medidas a serem tomadas.

Na reunião terão estado os seus coordenadores de campanha, o presidente do PT e o deputado José Eduardo Cardoso.

Ao que tudo indica, Paulo Bernardo, actual ministro de Lula, deverá transitar para o futuro executivo, assumindo o lugar de chefe da Casa Civil.



Expresso das Ilhas de 3 de Novembro de 2010

Gente Normal (crónica)


Barlavento, de 11 de Novembro de 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Entrevista a João Branco: "O Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo era e que luta para ainda ser"


Principal evento teatral do país, o Mindelact cumpre, em 2010, a sua décima sexta edição. Depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República, João Branco, antecipa o que aí vem e comenta a falta de uma estratégia pública que torne a criação artística uma prioridade nacional.

Em 1995, o que é que esteve na base da fundação do Festival Mindelact?

Várias coisas. Uma delas foi o facto de nos termos apercebido de que, depois do movimento que a cidade tinha em Agosto por causa do festival Baía das Gatas, ela morria um pouco em Setembro, altura em que praticamente não acontecia nada. Sendo a nossa área o teatro, achámos que seria interessante avançar, de forma consequente, para um evento teatral.

Quem é o “nós” a que te referes?

O conjunto de pessoas que resolveram avançar com isto. Actores, actrizes, gente do teatro.A primeira edição teve a participação de três grupos, dois de São Vicente e um de Santo Antão e ainda foi realizada de forma um pouco improvisada, digamos assim. Só depois é que foi fundada a Associação Mindelact. Em 96, então, já foi um festival bastante maior, com 24 dias de duração e grupos de praticamente todas as ilhas de Cabo Verde.

Quando é que acontece a internacionalização?

A internacionalização dá-se em 97, graças a uma co-produção entre a Mindelact e Associação Cena Lusófona, de Portugal, que realizou uma Estação em Cabo Verde, no âmbito do festival. Por isso é que costumo dizer que, para nós, o festival mais importante foi o de 98, porque foi o primeiro com carácter internacional, produzido sem a ajuda directa de nenhuma instituição. Nesse ano o desafio era provarmos a nós próprios que seríamos capazes de continuar a ter um festival internacional.

O que é que a edição de 2010 apresenta de novo?

Procuramos sempre inovar, através de propostas teatrais que, do ponto de vista estético e da temática, tragam algo de novo às pessoas. O investimento que é feito, tanto por nós, como pelo Estado de Cabo Verde, pelas empresas que nos apoiam, pela Cooperação Internacional dos diversos países ou pelos próprios grupos que participam, é muito grande. Por isso, convém que cada espectáculo, por si, valorize esse investimento e essa valorização pode ser feita pela qualidade, mas também pela novidade em relação ao tipo de texto, à estética da peça ou ao lugar em que é apresentado.

Este ano, essa componente da inovação é muito marcante. Seja pelo espectáculo de abertura do Leo Bassi – que é um provocador nato – ou pela apresentação que vai decorrer num vulcão extinto. Paralelamente, vamos ter teatro um pouco por todo o lado. No fundo, todas as propostas que procuramos trazer, têm algo de novo, para além da preocupação de qualidade.

O Mindelact, com as características que tem, só faz sentido em São Vicente?

O Mindelact é o que é por ser nascido aqui e o próprio nome do festival tem o nome da cidade. Não é que não possa haver outros festivais noutras cidades, mas inevitavelmente iriam ter um espírito diferente.

Cada cidade tem a sua alma própria e o Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo é. Melhor, acho que o Mindelact reflecte aquilo que o Mindelo era no passado e que luta para ainda ser hoje: uma cidade cultural, desperta, que se interessa, que provoca, que reivindica.

O Mindelo deixou de ser assim?

São os novos tempos. As pessoas são cada vez mais individualistas, menos colectivistas. O problema de uma cidade, já não é o teu problema. Só será o teu problema se te entrar pela casa adentro. É como a história da dengue. As pessoas só se preocupam com a dengue quando algum familiar, amigo ou conhecido está em perigo de vida.

O Mindelo de hoje é uma cidade que não se preocupa, que não tem o espírito de criatividade e de reivindicação que tinha há algum tempo.

Como tinha em 95?

Creio que sim. Aliás, se não tivesse, o Mindelact não tinha nascido.

Este ano vão experimentar uma extensão na Praia.

Essa extensão surge um pouco como tudo no Mindelact. Toda a estruturação da programação, com o Palco Principal, o Festival Off, o Teatrolândia e agora o Teatro Periferia, foi surgindo motivada pela necessidade de inovação e de diversificação dos públicos. Para nós, este é um festival que deve ter um cunho social muito importante.

A cidade da Praia tem tido vários eventos inovadores, seja no domínio das artes plásticas ou da música. Achámos que seria a altura de fazer uma extensão do Mindelact e fazemo-lo sem qualquer tipo de complexos. Até para lutar contra alguns tipos de preconceitos. Isto não é um Praiact, É uma extensão do Mindelact na cidade da Praia. São duas coisas muito diferentes. E que só foi possível porque houve duas instituições locais, o Instituto Camões – Centro Cultural Português e a Câmara Municipal da Praia, que aceitaram ser parceiros nesta aventura.

Tendo em conta esses preconceitos, a extensão não pode ser entendida como uma provocação?

Eu já ouvi coisas do género “então já não basta estar tudo lá, ainda vão fazer o festival na Praia?”. É apenas uma extensão. Isso acontece em todo o mundo. Em Portugal, o Festival de Teatro de Almada, que é o maior festival do país, tem espectáculos em Lisboa, no Porto e noutros locais.

O mais importante desta extensão é dar oportunidade às pessoas que vivem na Praia, e muitas delas até são de São Vicente, de usufruírem dos espectáculos que nós conseguimos trazer ao Mindelo.

O Mindelact serviu para formar um público?

Não só o festival, como também os cursos de teatro do Centro Cultural Português. Quando tu dás um curso de iniciação teatral estás a passar um determinado tipo de informação e estás também a formar um espectador especializado. Esse espectador, quando vai ao teatro, leva um primo, um amigo ou a namorada e vai passar a informação para alguém que, por sua vez, começa também a ver o teatro de outra forma.

A formação e o festival têm sido fundamentais e hoje o público do Mindelo é generoso e, sobretudo, muito conhecedor.

Para além de que, quem vai ao teatro no Mindelo não aceita que o espectáculo co mece com mais de cinco minutos de atraso. Só isso, é um avanço considerável.

Cultura em Cabo Verde

Faltam palcos em Cabo Verde?

O Mindelact é um grande palco e tem sido um factor motivacional. A paixão pela arte não é tudo. Tens de ter condições, tens de ter salas de ensaio, tem de haver lugar para apresentar os espectáculos.

O facto de o Mindelact existir, torna a participação no festival como uma meta. Muitos grupos de teatro ainda existem pelo facto de terem essa perspectiva de participarem no festival.

O que falta em Cabo Verde são outros factores que deveriam existir e não existem. É uma questão de tu teres espaços públicos e esses locais programarem espectáculos com grupos de teatro nacionais.

O que falta, é tu teres alguém, responsável por um espaço público, seja um Auditório Nacional ou um centro cultural, que chame os grupos de teatro e lhes diga que quer apoiar o seu trabalho.

De que forma?

Se numa cidade existem seis grupos de teatro, se um ano tem doze meses, então cada grupo tem dois meses para apresentar uma peça. Em contrapartida, a sala ganha a possibilidade de ter uma programação própria de teatro. São coisas relativamente simples de fazer e que não são feitas.

E as infra-estruturas que existem são suficientes?

A questão que se põe é o que se faz com o pouco que se tem. Eu não acho que a solução seja gastar milhares de contos a fazer um espaço todo novo e multifuncional. Com certeza, seria bom, mas se calhar seria melhor apostarmos naquilo que temos.

Eu continuo a achar estranho que o Auditório Nacional, na capital de Cabo Verde, tenha a sua gestão privatizada. Um Auditório Nacional tem de ter uma direcção artística, um corpo técnico próprio e uma programação própria, que é uma programação que o Estado coloca à disposição das pessoas, como acontece com os teatros nacionais, em qualquer país do mundo. Na prática, temos ali um palco que existe mas não está disponível.

No Mindelo temos o Éden Park.

O Éden Park, que está praticamente sem salvação. Esteve durante os últimos dois anos a apodrecer à vista de todos, o que quer dizer que neste momento já está podre. Se calhar a solução não era fazer outro teatro. Era, isso sim, arranjar maneira de comprar aquele edifício, fazendo jus à sua história e importância que ele tem para a cidade, e transformar aquilo num centro cultural, palácio da cultura ou teatro municipal.

A cultura é esquecida entre quem decide?

Uma grande entrevista de um grande estadista cabo-verdiano abrange todos os temas, menos um. Há ali um nicho que é sempre esquecido. A cultura cabo-verdiana é um lugar pequenino que nunca é considerado, mas que de facto é o que dá força a todo o resto.

O que eu penso é que há muita coisa por fazer. Fala-se em mudança de paradigma e de economia de cultura e há dez anos que estamos às voltas com os mesmos temas.

Acho que existe uma falta de conhecimento muito grande e existe uma máquina no Estado que emperra um pouco as coisas.

Há dois anos foi feito um fórum, muito abrangente, com artistas de todas as áreas. Saí de lá bastante entusiasmado com os resultados. Uma das coisas que foi prometida é que no espaço de seis meses seria apresentado um plano estratégico para a cultura. Já passaram dois anos e esse plano não apareceu. É preciso agir mais e mais depressa, sobre novas bases.

Que importância atribuis à condecoração que recebeste há dias?

Acho que foi muito importante essa distinção, por várias razões. Para mim foi importante que o teatro e a dança tivessem sido contemplados neste tipo de condecorações que muitas vezes, por razões óbvias, se lembram apenas da música

Depois, é um factor de orgulho e motivação, de satisfação pessoal e colectiva, que eu devo partilhar com quem trabalhou comigo ao longo dos últimos anos, até porque no teatro ninguém faz nada sozinho.

O que é que faz uma boa política cultural?

Essencialmente é entender alguma coisa de cultura. A primeira coisa a entender é que os artistas cabo-verdianos não são subsidio-dependentes, como algumas pessoas gostam de fazer passar. Ser um músico, encenador ou artista plástico é tão importante como ser advogado. Ter um centro cultural é tão importante como ter uma escola ou um campo de futebol.

Mudar mentalidades é colocar a cultura num patamar que corresponda à importância real que ela tem para o país. É preciso que as pessoas levem estas coisas um pouco mais a sério. Enquanto continuarmos a considerar que o artista é um coitadinho e que a cultura é uma coisa anexa, não vamos a lado nenhum. A cultura é uma coisa estrutural e estruturante.

Para um homem do palco, como tu, o trabalho artístico em Cabo Verde é diferente daquele que se experimenta noutros países?

Completamente diferente. Há uma energia, uma emanação, um lado humano e um compromisso que não encontras noutro lugar. A mim o que me assusta é que isso se está a perder.



Expresso das Ilhas (Cabo Verde) n.º 457 / foto: Anselmo Fortes